A experiência de mudar para a Espanha com a família

Chego a ser repetitiva, mas a melhor coisa do blog é, sem dúvida, as pessoas que aparecem na minha vida graças a ele. A Juliana* acompanha o Facebook do Esto es Madrid, Madrid há algum tempo e quando eu perguntei por lá se alguém queria compartilhar sua experiência sobre como é morar em outras regiões, ela se prontificou e escreveu esse texto lindo sobre a experiência de mudar para a Espanha com a família. Espero que vocês gostem, porque eu adorei! E caso se animem a dividir sua experiência morando aqui, me escrevam!
“Valencia é aquela cidade da Espanha sobre a qual ninguém perguntava, mas isso é passado. Cada vez mais ela tem se tornado destino de imigrantes, principalmente brasileiros. Tranquilidade, custo de vida relativamente baixo, praia, arborização, transporte público eficiente, oportunidades de trabalho e vida cultural intensa são alguns dos motivos que levam os estrangeiros a escolhê-la como seu novo lar.
Viver em família e criar os filhos também é fator bastante considerado na escolha por Valencia. No nosso caso, estar aqui foi obra do destino. Cheguei há 5 meses com marido e dois filhos, porém sem conhecer a cidade.  Nosso destino inicial era Barcelona, porque devido às características do trabalho dele, surgiu a oportunidade de realizar essa mudança para a Europa com a opção de escolher onde ficar.  Meu marido já morou lá e é apaixonado pela cidade.  Como a ideia de viver uma experiência no exterior é bem antiga em casa, nós tínhamos alguma noção do que seria necessário, porém sou super planejadora e passei quase um ano pesquisando, listando prioridades, preparando documentos e mudando de ideia também.
Mesmo assim, nós mudamos o rumo para Valencia meio que de última hora, com o objetivo de agilizar os trâmites do meu visto. Tive receio de que isso se prolongasse muito em Barcelona, já que lá os pedidos de atendimento nas extranjerías são mais numerosos. Portanto, me vi diante do meu primeiro desafio de expatriada: chegar numa cidade nova sem todo o conhecimento e organização que gostaria de ter. Com base apenas em poucas pesquisas na internet e um sobrevoo virtual no Google, estabelecemos as prioridades: adaptar os meninos, principalmente o pequeno, e encontrar um lugar para morar.
O mais velho já estava matriculado num curso de idiomas, então o passo seguinte foi visitar as escolas para o mais novo. Na Espanha existem basicamente três modelos de escolas: públicas, concertadas e particulares. Já havíamos decidido que tipo de escola queríamos, inclusive considerando as opções para a idade dele. Porém, já sabemos que querer não é poder, e nesse caso não foi mesmo.  As duas preferidas não tinham vagas e ele foi para a terceira opção.  E, apesar de uma adaptação inicial difícil, hoje ele está muito feliz nessa escola. Acho muito importante falar sobre adaptação escolar e ela depende, ao meu ver, principalmente de quatro fatores:
  1. O tipo de escola: que tipo de escola você deseja para seus filhos? Essa pergunta é fundamental para o seu planejamento.  Além de pensar na metodologia, espaço físico, perfil das professoras, etc, é bom lembrar que algumas darão mais abertura para os pais acompanharem seus filhos nessa jornada difícil e encantadora de conhecer novos amigos, novos professores e novos ambientes sem falar a língua deles. Outras serão mais rígidas e não deixarão os pais participarem. Você precisa decidir o que é importante para você nesse momento.
  2. A disponibilidade dos pais: quanto tempo e disposição eles têm para ajudar na adaptação?
  3. As características da criança: tímida, expansiva, suscetível a mudanças, não se afeta com mudanças e várias outras que fazem parte desse universo infantil tão particular e rico.
  4. Não podemos prever tudo: ainda que você consiga observar a combinação dos três fatores acima, na prática tudo pode acontecer. Lide com as surpresas e siga em frente.
A busca por moradia se deu com base nos endereços das escolas e, de novo, sem planejar, conseguimos um apartamento que fica a 10 minutos da escola dele e a dois minutos do curso do mais velho.
Felizmente encontramos nesse caminho pessoas dispostas a ajudar e, ainda que não tenha acontecido tudo como queríamos (ainda bem!), estamos nos adaptando e gostando muito da cidade. Há vários parquinhos com brinquedos em todos os bairros e Francisco já está habituado a aproveitá-los no caminho da escola ou quando passeamos. Ele também explora a cidade de patinete, o que é muito fácil e seguro, já que as calçadas são boas, a cidade é plana, a maioria das ruas é pequena e os carros sempre param para os pedestres passarem. A acessibilidade nos ônibus, trens e metrô é ótima, o que facilita também passear de carrinho com ele.
Tem uma coisa que me incomoda bastante e percebo que é uma questão de hábito e de visão de vida: a maneira rígida e “impositora” de olhar as crianças. Vejo várias situações na rua em que crianças são proibidas de “ser crianças”: brincar, se soltar, correr, fazer barulho, em nome de uma “ordem e disciplina” que, pra mim, não cabem nessas situações.  No Brasil e em qualquer lugar do mundo tem isso também, mas aqui eu vejo muito, sempre. E mais: as pessoas se sentem livres para dar bronca e dizer ao meu filho o que ele deve ou não fazer. Já arrumei briga (briguinha, coisa pouca) por causa disso.  Acredito que, por uma questão de respeito a uma criança estranha, a pessoa incomodada poderia se dirigir aos pais para tentar resolver a situação.
Eu sinto que esse processo mexeu profundamente com a família toda. Foi necessário ficarmos atentos a muita coisa – incluindo as necessidades, o cansaço e as emoções do outro – e disponíveis para imprevistos o tempo todo.  Trabalhamos duro em equipe e essa é uma das melhores lembranças que teremos desses tempos. Percebo que estamos vivendo o ciclo natural das mudanças: passamos por um início cheio de dúvidas, depois permitimos que nossos olhos e corações se acostumassem à cidade e evoluímos nisso a cada dia, aos poucos. De repente, o estômago já não embrulha mais cada vez que preciso conversar com alguém na rua.
O que mais gosto em Valencia?  O verde. Para quem veio de São Paulo, a cidade é uma floresta.  Sinto que respiro saúde quando olho para as árvores, jardins e parques. E imagino que quando conhecer os pueblos vizinhos, essa sensação será ainda mais forte.
Listei abaixo algumas sugestões para quem pensa em mudar com a família para viver em outro país:
  •  Planeje muito
O máximo que puder. Porque mesmo planejando muito, você não conseguirá abranger tudo, então quanto mais estiver avançado nisso, mais fácil será lidar com os imprevistos. Você pode começar fazendo uma lista de desejos e prioridades de todos, e também dos caminhos possíveis para realizar a imigração de forma legal. E então dividir o trabalho, com o objetivo de realizar o máximo da lista que puderem.
  • Pesquise
Entre em grupos nas redes sociais, leia sobre as cidades, o custo de vida, idiomas, escolas, tipos de educação, oportunidades de emprego, clima, meios de transporte, culinária, infra-estrutura e demais itens que forem importantes para sua família.
  • Idioma
Quanto mais preparado vocês estiverem nesse item, melhor, claro.  É difícil querer expressar coisas e não conseguir, parece que a gente vira outra pessoa. De qualquer forma, um sorriso geralmente resolve muita coisa.
  •  Dinheiro
Faça um plano financeiro de acordo com o que sua família deseja. Guarde dinheiro e siga o plano fielmente.  Acrescente um percentual de pelo menos 30% a mais para imprevistos. Eles sempre aparecerão e, sem dinheiro, fica mais difícil resolvê-los. Não se afobe.  Não viaje antes de concluir o plano. Principalmente quando estamos com filhos, tranquilidade financeira e paciência são fundamentais.
  •  Alugue sua casa ainda no Brasil
Hoje já é possível contar com pessoas que auxiliam os brasileiros a conhecer e até alugar sua futura casa antes de sair do Brasil.  Vale a pena investir nisso, porque o mercado de aluguéis na Europa está supervalorizado, a demanda é imensa e a oferta é pequena, e o resultado dessa equação é: preços altos. Além disso, os proprietários muitas vezes colocam restrições a pessoas de fora, por exemplo, quando elas não têm trabalho fixo ou os documentos ainda não estão totalmente em dia. Portanto, é um assunto para olhar com o máximo de cuidado e tempo disponível.
Quem me ajudou quando já estava em Valencia, mas que também pode ajudar as pessoas ainda enquanto estão no Brasil, foi a Gorette,  do canal Vivendo fora do Brasil, que faz assessoria para famílias brasileiras.
  • Casa ou apartamento?
Essa é uma decisão que vai depender do tamanho e do bolso da família, além das preferências pessoais. Casas na Europa são mais comuns em povoados e cidadezinhas que ficam ao redor ou distantes das cidades grandes e capitais. Valencia é um desses casos. Há pouquíssimas casas na cidade, porém há muitas opções nos pueblos. Portanto, a região em que você morar será decisiva também. Os prédios antigos aqui na cidade têm estruturas “finas” que permitem que o barulho vaze facilmente de um aparatamento para outro, e se eu fosse você consideraria essa informação caso tenha crianças pequenas.  Elas fazem barulho e os valencianos reclamam.  Já passei por isso e já ouvi outros relatos também.  A solução? Penso que não seja justo com as crianças exigir que fiquem imóveis em casa. Por isso, pense em propor atividades calmas em casa, morar no primeiro andar e também dialogar com o vizinho explicando que criança é criança 🙂
  • Leve na mala alguns itens de apelo emocional
Cada família tem uma história.  As condições da mudança determinarão o quanto de objetos e pertences vocês deixarão no Brasil. Sendo muito ou pouco, uma coisa é fato: nas malas, caberá pouca coisa. A escolha do que deixar, vender, doar ou levar é absolutamente pessoal e é um momento de grande carga emocional. Desapegar é preciso e esse exercício exigirá foco e um abraço coletivo bem forte. Independente das escolhas, arrume um espaço para objetos ou brinquedos que transmitam sensação de pertencimento na nova casa.  Eu trouxe coisas como almofadas, brinquedos e uma árvore de Natal de feltro do meu filho mais novo, que foram muito úteis pra ajudá-lo a se sentir em casa.
  •  Abrace as suas perdas
Todo dia, ao abrir os olhos, já estamos fazendo escolhas. É natural da vida. Escolher imigrar é também escolher abandonar coisas, perder o chão, a zona de conforto, o colo de pai ou mãe, a melhor amiga.  A relação tempo-espaço ganha uma nova dimensão. E você terá que viver nela. Tem dias que dói, tem dias que passa. Acolher a saudade e a distância é, ao meu ver, a melhor forma de conviver com elas”.
*Juliana é publicitária, apaixonada por meditação, óleos essenciais e natureza. Saiu do Brasil após desejar por cerca de 20 anos viver uma experiência fora de casa. Começou por Valencia, onde criou o perfil @julinomundo no Instagram, para contar um pouco sobre suas paixões e a vida de expatriada. Mas o mundo é grande e as possibilidades, infinitas.

7 Comentários em A experiência de mudar para a Espanha com a família

  1. Fantástico relato de sua experiência. Parabéns!!?

  2. Olá sou a cleia.eu tenho muita vontade de voltar a espanha tenho muito medo… pq tenho um filho de 7anos e minha maior preocupação e ele por conta da adaptação o pai dele e espanhol e mesmo assim tenho medo de voltar.gostaria de saber experiência parecida a minha do tipo que poderia me ajudar! obrigada….

    • Cleia. Acredito que cada experiência é unica e tudo depende da família, da criança e de como levam essa situação. Como não tenho filhos, não tenho como opinar nesse assunto. Se você quiser, recomendo falar com a Juliana, que é quem viveu uma experiência similar. Você pode entrar em contato com ela pelo Instagram @julinomundo Um abraço!

  3. Verônica Andrade // 20/03/2019 em 2:41 pm // Responder

    Bom dia Larissa!

    Gostaria de saber se para conseguir um contrato de trabalho é necessário vir de uma empresa na Espanha ou pode ser de um familiar espanhol para trabalhar bem sua casa.Tenho 2 filhos menores e esposo.

    Muito grata
    Veronica

    • Oi, Verônica. Não entendi sua pergunta. Você se refere se é possível conseguir um contrato de trabalho se um familiar seu te contratar para trabalhar na casa dele. É isso? Infelizmente não! Para contratar um profissional estrangeiro, é necessário comprovar que não encontrou uma pessoa no país para realizar o trabalho, ou seja, teria que ser um profissionalmente altamente qualificado. Você pode ler mais aqui: https://www.estoesmadridmadrid.com/2015/04/16/trabalhar-na-espanha/

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