Como é morar em um país em crise?

(ou melhor, como é morar na Espanha atualmente).

A crise já passou? É fácil arranjar emprego? Por que tem tanta gente nos bares e restaurante se o país está em crise? A situação na Espanha é melhor que a do Brasil? Essas são algumas das perguntas que recebo quase todas as semanas, enviadas principalmente por pessoas que sonham em sair do Brasil e viver no exterior. Em alguns casos, as pessoas já escolheram a Espanha e em outras é uma dentre várias opções.

Decidi escrever esse post exatamente para esclarecer algumas ideias que considero equivocadas sobre a Espanha e para informar de que, sim, a crise continua, mas que a crise espanhola é bem diferente da suposta crise que o Brasil começa a enfrentar – pelo menos no momento atual.

Vamos por partes:

– A crise já passou? Qual o cenário atual?
Não, a crise ainda não passou, infelizmente. Os dados econômicos mostram uma leve recuperação, com queda moderada no desemprego e alta moderada do consumo. Mas, na prática, a situação ainda é complicada: o desemprego é de 22,5%. Para imigrantes, a situação é ainda pior. Tudo aponta para uma recuperação, mas bastante lenta.

– Emprego.
Já falei sobre esse assunto em vários posts e volto a repetir: não está fácil encontrar emprego aqui. Se você não tem um visto de trabalho é praticamente impossível, e se você tem, você provavelmente terá que se contentar com um trabalho que paga pouco e/ou fora da sua área.

– Pobreza.
Um dos resultados da crise foi o empobrecimento da população, afetando espanhóis e principalmente imigrantes. Há dez anos, havia pouca gente pedindo dinheiro nas ruas ou no transporte público, mas isso já é bem comum atualmente, infelizmente.

– Insegurança.
O número de roubos aumentou nos últimos anos, mas não há uma sensação de insegurança, já que na maioria das vezes os furtos acontecem sem que a vítima perceba. É o típico caso da bolsa aberta no metrô ou do celular deixado em cima da mesa, como alertou o blog Desbravando Madrid. Madrid é uma cidade bastante segura e é muito raro ouvir casos de assaltos a mão armada ou algo do tipo. Essa é uma das grandes diferenças em relação às grandes cidades do Brasil.

– Mas os espanhóis não parecem preocupados…
Confesso que quando cheguei aqui, eu tinha um pouco essa sensação, mas depois me dei conta de que os lugares aonde eu ia eram principalmente turísticos e não um lugar onde as pessoas “de verdade” estavam. Bares e restaurantes no centro são um exemplo disso: há sempre “locais” e turistas, por isso costumam estar lotados. Se você for a um bairro mais afastado do centro, entrar num restaurante e falar com o garçom, ele provavelmente irá te dizer que os preços caíram muito e, ainda assim, ele só recebe a metade dos clientes que recebia.

– Custo de vida.
Uma das vantagens da Espanha em relação ao Brasil é o custo de vida, embora seja importante ressaltar que o real está muito desvalorizado atualmente, o que torna a comparação um pouco complicada. Ainda assim, o Índice Big Mac revela que o Brasil tem o quarto BigMac mais caro do mundo, cerca de 10% mais caro que nos EUA, enquanto na Zona do euro ele é entre 10 e 25% mais barato que nos EUA.

Isso sem contar que aqui muita gente usa a saúde e a educação públicas, que no Brasil representam um gasto importante para a classe média. Além disso, o governo espanhol concede algumas ajudas para quem está desempregado ou para famílias numerosas, entre outras, e o seguro-desemprego aqui pode chegar e ser de até dois anos. É graças a isso que não há ainda mais gente nas ruas pedindo dinheiro ou em trabalhos informais.

– A Espanha está melhor que o Brasil?
Essa é a pergunta mais polêmica e provavelmente a mais difícil de responder. Falando em economia, o Brasil ainda está melhor que a Espanha: o índice de desemprego é de apenas 6,7% e, conversando com amigos, praticamente todos estão empregados e recebem um salário no mínimo ok, enquanto tem muita gente ganhando bem. Já aqui a maioria das pessoas que conheço ganha pouco, mesmo que seja qualificada, ou está desempregada. Em alguns casos, as pessoas preferem nem buscar porque sabem que vão ganhar muito pouco e consideram que nem compensa.

Claro que a a balança pesa positivamente para o lado espanhol quando falamos de segurança, saúde e educação gratuitas, mas dá para falar em qualidade de vida real quando não se tem emprego?

– Ir ou não ir?
Muita gente me escreve pedindo conselhos sobre vir tentar a sorte na Espanha e eu sempre sou direta. Se você não tem um visto de trabalho ou residência e não tem a nacionalidade espanhola, eu não recomendo a vir porque é MUITO difícil encontrar trabalho – se você quiser saber mais sobre trabalho na Espanha, confira esse post.

Falo da minha experiência pessoal: enquanto não consegui um visto de trabalho (e consegui tê-lo só depois de fazer a união estável com meu namorado), eu não consegui absolutamente NENHUM trabalho, apenas estágios. Cheguei a fazer algumas entrevistas, mas cada vez que eu dizia que não tinha um visto de trabalho, eles descartavam a minha candidatura. Depois que consegui o visto, fiz entrevistas e o salário mais alto que me ofereceram era de mil euros, o que è bem baixo se levarmos em conta que sou uma profissional qualificada, com duas pós, três idiomas e cerca de 10 anos de experiência. É desanimador!

Você pode pensar em abrir um negócio, mas aqui também há muita burocracia e os riscos continuam sendo altos porque o consumo ainda está só começando a se recuperar.

Se você tem a cidadania espanhola ou um visto de trabalho, lembre-se que você terá que concorrer com milhares de pessoas que estão desempregadas e que provavelmente falam espanhol melhor que você e já estiveram no mercado de trabalho espanhol, o que dá mais vantagem a elas.

Resumindo: por mais cafona que soe, nada é impossível, mas a situação atual ainda é bem difícil e desanimadora. Se você decidir vir, pesquise MUITO antes e venha ciente de que terá que contar com uma boa poupança, senão você corre o risco de voltar ao Brasil frustrado e sem grana. É fundamental ter os pés no chão e planejar cada detalhe dessa mudança tão importante.

19 Comentários em Como é morar em um país em crise?

  1. A minha visão do penúltimo ponto é um pouco diferente… Acho que conseguir um emprego é a principal barreira, mas uma vez que você consegue a Espanha está muito melhor que o Brasil, mesmo os salários sendo mais baixos. Segurança é uma coisa que nao tem preço, e com as ajudas do governo com relação a saúde e educação da para viver bem com pouco. No Brasil os salarios sao melhores mas os preços sao tao altos que voce sempre ta apertado. Alem disso o indice de desemprego nao é uma medida confiavel, já que no Brasil existem milhares de sub-empregos que reduzem essa estatistica (aqui vc nao ve 50 pessoas trabalhando num pedágio por exemplo…). Agora… realmente encontrar um emprego é dificil… vc vai competir com muita gente qualificada e dificilmente vai ter uma vantagem sobre um espanhol com as mesmas qualificações… principalmente quando consideramos (e há que considerar) que nesse quesito os espanhóis sao muito mais racistas do que gostam de aparentar, bem diferentes dos ingleses por exemplo, que tem um mercado de trabalho bem mais aberto. O melhor é buscar trabalho numa empresa (dependendo do ramo é claro) onde o português seja um diferencial, ou seja, uma empresa portuguesa ou que tenha muita participação e muita atividade no Brasil.

    • Paula, concordo com você. Acho que realmente depois de conseguir um emprego, as coisas aqui são melhores que no Brasil pelos pontos que você falou. O problema é mesmo consegui-lo e, até conseguir – se conseguir algo na sua área – pode levar muito tempo, enquanto no Brasil você poderia estar subindo posições na carreira. Sobre apostar no português, eu tinha comentado isso num outro post, já que é o nosso grande diferencial!

  2. Seu blog é MARAVILHOSO, estou pensando em me mudar para Madrid ano que vem e estou pesquisando sobre a cidade e acabei achando seu blog que praticamente tem as respostas de TODAS as minhas duvidas.

    Eu moro atualmente nos Estados Unidos mas meu visto de trabalho vence ano que vem e estava na duvida entre voltar ao Brasil ou tentar ir para a Espanha para tirar minha cidadania (sendo filha de espanhol so tenho direito a cidadania se morar 2 anos lá) mas em 3 meses que eu de entrada nos papeis ja saiu com a minha autorizaçao de trabalho.
    E agora que li seus posts fiquei mais na duvida ainda, medo de ir tentar alguma coisa com essa crise. haha

  3. Oi, tudo bem? Eu gostaria de te fazer alguma perguntas. Se puder me mandar um email, pra eu te mandar outro, agradeceria imensamente.
    Se quiser me adicionar no fb, seria um prazer. Grato
    https://www.facebook.com/ricardo.teixeira.399

  4. Ana Lúcia R. Souza // 24/07/2015 em 7:42 pm // Responder

    Olá Larissa. Quero parabenizar pelas dicas pra lá de valiosas que publica aqui pra gente. Dá pra ter uma visão realista de como é a rotina aí na Espanha. Tenho um namorado que mora em Valência e ele me diz sempre tudo o que você publica aqui no blog. Ele também me disse que posso ter a cidadania espanhola automaticamente assim que nos casarmos, mas para ficar mais fácil meu ingresso lá, podemos nos casar no Brasil e embarcarmos em seguida para a Espanha. Estamos pensando em fazer isso. Acha também que será a melhor opção para nós, uma vez que costumam deportar muitos brasileiros que tentam ingressar como turistas? Beijos.

  5. Juliana Koch Floriano // 13/11/2015 em 7:29 pm // Responder

    Olá.

    Eu e meu namorados iremos em janeiro para Espanha, mais precisamente em Múrcia, para fazermos um semestre da Graduação.
    Teremos o visto de Estudante, gostaria de saber se é possível conseguir algum tipo de trabalho com ele, nem que seja de meio período…

    Obrigada!

  6. Morei quase 12 anos na Espanha , tenho nacionalidade , casa e confesso voltei para o Brasil . A realidade da Espanha não é mostrada nem a metade no exterior , muita gente passando fome , emprego somente na temporada do verão para os Espanhois o resto do ano a deriva e comer o que caritas doa ou do banco de alimentos . não aconselho a ninguem se aventurar por ali . Em relação de Educação é perfeita , já medico não estou de acordo . Tirando a emergencia , uma consulta com um especialista demora ate 6 meses e uma consulta normal é igual que no Brasil com diferença que aqui te mandam dipirona e lá Ibuprofeno .kkk

  7. Larrissa, estou indo para madri no dia 28 de março, para poder estudar e procurar um trabalho, tenho cidadania espanhola, meu unico medo é a onde morar, onde posso encontrar um apartamento para dividir etc.
    queria muito a sua ajuda rsrs
    att;
    Felipe

  8. É dificil ter esperanças, pq nos ultimos meses, depois desse post, a situação do Brasil piorou astronomicamente. Moro no centro oeste e emprego tá cada dia pior, gasolina quase R$4,00, comida cara, tudo tá um absurdo, e vc abre o jornal e nem previsão de melhora. Eu não costumo ser pessimista, mas não tenho esperanças de que o Brasil melhore, ou se melhorar vai levar anos. A corrupção tá comendo solta, se analisarmos o Brasil é um país muito rico para conseguir financiar tanto bandido né…
    Mas espero que a Espanha melhore, não sei se por estar na zona do Euro, outros países ajudam ou fiscalizam mais essa questão da corrupção.
    Larissa, ouvi falar que a região da Andaluzia a situação está mais precária que no restante do país, é verdade?

    • Oi, Jéssica. Na verdade, a Andaluzia é uma região mais pobre da Espanha (o sul, em geral) e também foi afetada pela crise. Lá, os salários costumam ser mais baixos e o índice de desemprego um pouco mais alto que no resto do país. Um abraço!

  9. Estou morando em Portugal e gostaria de saber se existe cursos de espanhol gratuitos em Madrid.

    • Oi, Thomaz. Sim, há alguns cursos gratuitos oferecidos pela prefeitura, ONGs, igrejas e também no centro cultural Casa Encendida. Nas “escolas oficiais de idiomas”, você encontra cursos de espanhol com bons preços.

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