Gravidez na Espanha

Quem diria que eu, que vim a Madrid para estudar durante nove meses, acabaria dez anos mais tarde escrevendo sobre minha gravidez na Espanha e a minha experiência de parto.

Confesso que fui uma grávida que li e me informei muito porque desejava um parto natural e humanizado, então também vou compartilhar por aqui algumas dicas de livros, cursos e grupos.

Este post é muito pessoal e reflete como foi o acompanhamento da minha gravidez nos sistemas de saúde público e privado da Espanha, mas também traz o conhecimento da doula e estudante de obstetrícia Gabi Torrezani, brasileira que morou em Barcelona e agora mora em São Paulo, para dar uma visão mais global do assunto.

Gabi Torrezani

Antes de descrever o processo, ressalto que na Espanha a saúde pública é uma responsabilidade das comunidades autônomas, portanto, o acompanhamento à gravidez e parto pode ser totalmente diferente dependendo da região do país em que você morar. Por isso, nesse texto, você vai encontrar minha visão do sistema de saúde público da Comunidade de Madrid.

E já antecipo que em breve sai um post específico sobre o parto (escolha do hospital, doulas, etc.)

Foto: Elena Hidalgo

Pré-natal na Espanha

Por aqui, o acompanhamento médico é um pouco diferente se for feito pelo sistema público ou privado. No meu caso, fiz em ambos e achei as diferenças bastante relevantes.

Pré-natal no sistema público espanhol

No sistema público, tive consultas tanto com a matrona (enfermeira obstetra) quanto com o/a ginecologista do centro de saúde. O principal problema que vejo é que nem sempre o acompanhamento é feito com os mesmos profissionais, o que considero uma desvantagem numa situação em que você quer ter uma relação de proximidade e confiança com quem te atende.

A Gabi traça um comparativo entre os sistemas públicos do Brasil e da Espanha. “Em termos de pré-natal e exames solicitados, é bem parecido quando comparamos os dois sistemas públicos. Algumas diretrizes são diferentes, mas o que consideramos básico na atenção ao pré-natal é bem similar. Nos dois países, quando estamos falando de sistema público, o pré-natal costuma ser levado a cabo na atenção básica (CAP/UBS) pela equipe de enfermagem e direcionado à equipe médica apenas em caso de alto risco”.

Se você já tem a carteirinha de saúde, o primeiro passo quando descobre que está grávida é ir ao seu médico de cabecera. É ele quem vai te encaminhar ao ginecologista e/ou matrona para o acompanhamento durante a gravidez.

Além disso, as três ultrassonografias (chamadas aqui de ecos) importantes foram feitas no hospital que correspondia a mim de acordo com a minha residência e que seria o hospital onde seria o parto.

Com os médicos, as consultas eram sempre bem rápidas, mas com a matrona o atendimento era mais cuidado. A Samila, brasileira que mora em Madrid e está grávida atualmente, também teve essa impressão. “Acho importante aportar que, para mim, a figura da matrona – que eu nunca havia ouvido falar na vida – tem sido um diferencial no acompanhamento da minha gravidez. Com a matrona desde a primeira consulta tinha em média uma hora, ela te explica desde a alimentação, vacinas, exercícios e até a necessidade de acompanhamento psicológico quando via necessário. Nao sei se tive sorte com a minha, mas ela me passa muita segurança”.

Curso de preparação ao parto no sistema público

O sistema público também oferece um curso de preparação ao parto feito com as matronas do seu centro de saúde ou do mais próximo que ofereça o curso. Ele é opcional e eu acabei não fazendo porque já tinha contratado um curso privado, mas a própria matrona vai lhe dar informações relativas a ele durante o acompanhamento.

A Samila fez o curso e me contou sua experiência. “São sete aulas, uma por semana, com duas horas de duração. No meu caso foi com a minha própria matrona, que me acompanha desde o começo da minha gravidez no meu centro de saúde, mas conheci outras grávidas que eram de outros centros de saúde da região. Pelo que entendi os centros de saúde menores não possuem matrona. Comecei quando eu completei 30 semanas e, pelo que ela falou, a aula inicial era voltada para as grávidas que haviam entrado no terceiro trimestre”. A Samila disse que achou o curso “super atualizado e aprendi muito coisa, considerando que eu era completamente leiga sobre o tema. Inicialmente ela compartilhou com todas as alunas um drive com todo o material do curso, separado por tópicos. O material é super completo”.

Na época da pandemia, as aulas eram online, mas atualmente é possível escolher entre fazer as aulas online ou presencialmente. Por outro lado, a participação do/a parceiro/a ainda é restrita. “Desde o princípio ela recomendava que os parceiros entrassem e assistissem as aulas online. Só teve uma aula que foi presencial e com a presença dos acompanhantes, em que ela dividiu em dois grupos com horários diferentes. Nessa aula, ela falou da importância do acompanhante, ensinou técnicas de massagem, relaxamento, etc”.

Pré-natal no sistema privado

Como eu contava com um plano de saúde, também fiz um acompanhamento com uma médica privada. É importante ressaltar que a maioria dos planos de saúde conta com um período de carência para o parto, que, no caso do meu plano, era de oito meses.

Muitos brasileiros costumam reclamar da saúde privada na Espanha pelo atendimento ser rápido e frio, mas tive a sorte de receber uma dica de ginecologista um pouco antes de ficar grávida e gostei muito do acompanhamento feito com ela na clínica Zentro Empatia, já que era bastante humanizado. As consultas eram longas e era permitido entrar com acompanhante, algo que não era tão comum durante a pandemia.

Mas a Gabi ressalta o outro lado do setor privado. “Quando estamos falando de rede privada, daí a coisa muda bastante, com exames desnecessários (ultrassons extras, por exemplo), fora que no privado todo o acompanhamento costuma ser feito por médicos ginecologistas obstetras no Brasil, e na Espanha há uma mescla de acompanhamento feito por GOs e por matronas”.

Cursos de preparação ao parto privados

Conforme comentei, fiz dois cursos de preparação ao parto privados, que não estavam relacionados ao meu convênio. Um deles foi o curso online da matrona Naza Oliveira, conhecida nas redes sociais como Comadrona en la Ola. O curso é super completo, explicando desde alimentação durante a gravidez até exercícios para o dia do parto e cuidados com o bebê. Quinzenalmente há encontros onlines. Recomendo para quem busca um parto natural e humanizado porque traz muitas informações relevantes.

Também fiz um curso presencial e particular com a fisioterapeuta especializada em obstetrícia do Zentro Empatia. Foram nove horas de curso presenciais, todas com meu namorado, em que ela explicou principalmente as mudanças pelas quais o corpo passa durante a gravidez, massagem perineal, técnicas de controle de dor no dia do parto, etc. Gostamos bastante do curso também.

Licença médica antes do parto

Na Espanha, é bastante comum que a pessoa grávida se afaste do trabalho antes do parto por motivos de saúde, como, por exemplo, dor nas costas. A principal diferença em relação ao Brasil nesse sentido é que esse afastamento acontece por meio de uma licença médica e o período que você estiver com essa licença não é descontado da sua licença maternidade.

Essa licença só pode ser dada pelo sistema público de saúde e para solicitá-la você deve ter uma consulta com seu médico de cabecera.

Foto: Elena Hidalgo

Dicas de livros/grupos e perfis de IG sobre maternidade

“Parir” (Ibone Olza) é um livro interessante para quem quer aprender mais a fundo o processo da gravidez e principalmente do parto. Escrito por uma médica, ajuda a entender as vantagens do parto natural e como nosso corpo (inclusive nosso cérebro) responde a tudo que acontece na gravidez, trabalho de parto e lactância.

“Somos la leche” (Alba Padró). Livro imprescindível sobre amamentação. Bem prático e direto. Gostei bastante de como está organizado e o tom que ela adota.

“Guía para un embarazo consciente” (Laia Casadevall). Outro livro que achei ótimo, com capítulos curtos e dicas práticas e diretas. Uma pena que só comprei no final da gravidez e já tinha lido muita coisa em sites/blogs/perfis de IG. Mas para quem tá no começo da gravidez, recomendo bastante.

Recomendo o grupo de Facebook “El Parto es Nuestro”, onde as mulheres compartilham seus relatos de parto em hospitais e casas de parto da Espanha e também sobre parto em casa. Também indico bastante o documentário “Parir en el Siglo XXI”.

6 Comentários em Gravidez na Espanha

  1. Hola! Mesmo não estando mais no período fértil, ou seja, já passei para menopausa, achei seus relatos muito interessantes e que provavelmente vão ajudar outras mulheres. Gracias. 🤗

  2. Que legal! Amei o post. Tb moro em Madrid e agora atuo como doula e consultora de amamentação. Tb fui acompanhada pela Gaia do Zentro Empatía. Quem sabe um dia a gente se conheça.

    • Oi, Erika! Tudo bem? Sim, quero ir um dia no grupo de mães brasileiras 🙂 O meu acompanhamento foi com a doutora Alberta, da equipe da Gaia. Um abraço e obrigada pela mensagem!

  3. Olá, tudo bem?
    Estou grávida de gémeos e a trabalhar em espanha.
    Fui ao médico no privado que me indicou que deveria ficar de baixa de risco de gravidez.
    Já estou de 25 semanas e com muitos incómodos.
    Como posso obter a baixa por risco de gravidez? Apenas tenho que me dirigir à consulta no centro de saúde e pedir a baixa? É obtida no momento da consulta? Consegues dar-me mais alguma informação sobre isto por favor?
    Muito obrigada!

    • Oi, Andreia. Tudo bem e você? Na seção “Licença médica antes do parto” falei exatamente sobre isso. Eles dão a licença no momento. Boa sorte nesta reta final da gravidez e um ótimo parto para você!

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