Trabalho voluntário na Espanha

Todo mundo que já fez trabalho voluntário sempre diz que a experiência é ainda mais enriquecedora para aquele que está “colocando a mão na massa” do que para quem é realmente benificiado. Depois de ter vivido essa experiência por quase dois anos aqui, posso dizer que fazer trabalho voluntário na Espanha foi realmente intenso e positivo.

No Brasil, já havia tentado fazer voluntariado algumas vezes, mas nunca rolava. Depois de um tempo morando em Madrid, decidi voltar a pesquisar sobre o assunto, já que, naquela época, eu só estudava e fazia estágio, o que me deixava com tempo livre e muita vontade de conhecer gente nova.

Na internet, é possível encontrar muitos sites de ONGs que oferecem voluntariado, mas a verdade é que poucas responderam ao meu email de contato. Uma maneira prática de pesquisar “vagas” de voluntariado aqui na Espanha é através da Plataforma Voluntariado, onde você pode olhar vagas por região ou setor ou ainda de acordo com a sua disponibilidade.

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Confesso que no começo foi bem frustrante porque ninguém me respondia. Decidi seguir insistindo e fui, pessoalmente, ao centro de voluntariado da cidade onde morava, vizinha a Madrid. Preenchi uma ficha com o meu perfil e falando dos meus interesses e disponibilidade e, a partir daí, sempre que havia uma nova vaga com o meu perfil, eles me encaminhavam.  Nesse caso específico, o centro de voluntariado é parte da prefeitura, mas ele só recebe e repassa as vagas.

Até que um dia chegou  uma vaga que se encaixava muito comigo: ser auxiliar da professora de espanhol em aulas para mulheres imigrantes. Entrei em contato, fui fazer uma “entrevista” e fui chamada! Fiquei tão empolgada que nem refleti sobre o que viria e é claro que tive um choque: a sala era formada por cerca de 25 mulheres, todas marroquinas, entre 25 e 55 anos, residentes na Espanha há mais de 5 anos (havia algumas que moravam aqui há mais de 12 anos!) e que não falavam absolutamente nada de espanhol. Muitas não haviam sido alfabetizadas no Marrocos e sequer sabiam como segurar o lápis.

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Voltei pra casa chorando muito no primeiro dia, sentindo uma tristeza profunda e com uma sensação de derrota: eu achava que nada do que eu pudesse fazer mudaria isso. E a verdade é que foram meses dando pequenos passos e muitas vezes sentindo que a evolução no aprendizado era lenta ou praticamente nula.

Havia vários motivos para isso: éramos apenas 2 mulheres ensinando um idioma estrangeiro para um grupo grande de mulheres com níveis muito diferentes de conhecimento, com pouco tempo, sem o treinamento adequado e sem os materiais adequados. Mas a  gente estava lá para fazer o nosso melhor, né? E foi isso que eu fiz todas as manhãs de segunda-feira durante um ano e meio.

Algumas mulheres aprenderam a identificar as letras, outras escreveram o próprio nome e algumas já conseguiam ler pequenos textos e responder perguntas simples. E cada aula era uma nova emoção e uma nova dose de paciência… mas, mais do que qualquer outra coisa, era uma dose de carinho. No início, morria de medo do que elas pensariam de mim por ser “diferente”, mas pouco a pouco fui ganhando a confiança dessas mulheres, que se tornaram mais receptivas, carinhosas – sempre dizam “hola, guapa” ao chegar- e amistosas.

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Me perguntavam sobre a minha vida com curiosidade porque tudo era absolutamente novo para a maioria delas, que não tinha nem ideia de onde estava o Brasil e que língua é falada em nosso país.

Para mim, a maior lição foi quebrar muitos tabus que eu tinha em relação ao mundo árabe. Mas o maior foi, sem dúvida, ver que elas também estavam dispostas a se abrir e conhecer pessoas vindas de uma cultura diferente. Em uma sala cheia de mulheres que usavam véu, nunca me senti julgada por não usá-lo.

Durante as aulas, sempre rolava tempo para um bate-papo e eu ia, pouco a pouco, conhecendo aquelas mulheres que tiveram muito menos oportunidades que eu, e foi então que me dei conta de que, apesar de ser imigrante aqui -e passar pelos perrengues típicos de imigrante-, eu tinha uma bagagem cultural, educacional e cultural enorme, que me colocava em uma posição muito mais favorável no mercado de trabalho ou até mesmo na forma como sou vista pelos espanhóis. E elas, mesmo com tantos percalces e muitas vezes uma vida marcada por dificuldades, decidiam voltar à escola (ou ir pela primeira vez) aos 40, 50 anos… existe algo mais bonito que isso, que essa capacidade de se reinventar e aprender?

Tive que deixar o trabalho voluntário no final do ano passado devido ao meu horário de trabalho, mas a experiência vai ficar comigo para sempre. Na verdade, já estou louca para começar um novo no ano que vem! Mas isso é tema para outro post…

Se você já viveu algo parecido ou tem dicas de voluntariado na Espanha, conte nos comentários! Vou adorar saber!

  • Como expliquei no post, o trabalho voluntário foi algo que veio muito depois de chegar aqui. Não sei exatamente como funciona se você quer vir para a Espanha especificamente para fazer um trabalho voluntário, mas você encontra informações sobre isso no site do consulado.

8 Comentários em Trabalho voluntário na Espanha

  1. Que linda você! Sem mais palavras. Beijos

  2. Muito legal ler o seu blog. Pena eu nao ter achado eles antes.

  3. Nossa, que experiência linda.
    Sigo seu blog há tempos, pois amo a Espanha, mas nunca havia comentado.
    Parabéns ?

  4. ADRIANA OLIVEIRA // 29/06/2019 em 10:45 pm // Responder

    Olá boa noite!!eu chegueiii tem um mês do Brasil e como não posso trabalhar ainda, gostaria de saber se consigo fazer o trabalho voluntário?

    • Oi, Adriana! Acredito que não haja problema, mas o ideal é entrar em contato com a própria ONG com a qual você gostaria de colaborar. Um abraço!

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