Experiência da leitora: ser estudante em Salamanca

Há algum tempo, minha xará Larissa escreveu um post aqui no blog recomendando seu TOP 5 de Salamanca, cidade onde ela vive. Como ela é muito gente boa (sina do nome? rs!), ela também topou contar como é ser estudante em Salamanca. Com vocês, o guest post da Larissa:

Mi Salamanca dorada

Bom, eu sou suspeita para falar dessa cidade que amo tanto e que deixou meu coração mais “dourado”. Como disse Cervantes: “Salamanca, que enhechiza a la voluntad de volver a ella a todos los que de la apacibilidad de su vivienda han gustado” (na tradução livre, seria: “Salamanca, que enfeitiça na vontade de voltar a todos que se encantaram por seu modo tranquilo de viver”). Gostei tanto dessa cidade que decidi estudar aqui!

Salamanca é considerada “la ciudad de la lengua española” por conta do seu know-how no ensino da língua castelhana. Minha primeira estada aqui, em 2011, foi por conta disso. Depois de terminar minha graduação em Letras e sempre ser apaixonada pela língua e literatura espanhola, decidi estudar três meses nos “Cursos Internacionales”, da USAL (sigla para Universidad de Salamanca). Foram meses mergulhados nas ruas (em que muitas vezes me perdi) e no cotidiano da cidade! Nos meses letivos, Salamanca respira jovialidade! De todos os cantos do mundo, muitas vezes, você, andando pela rua, se sente numa “torre de Babel”: do chinês ao português, você ouve todas as nacionalidades estudantis! Mas esses três meses passaram rápido demais… E Salamanca continuou no meu coração.

Daí voltei para o Brasil, casei, dei aulas de espanhol, trabalhei mais um pouco, fiz o Mestrado (sobre literatura espanhola, filosofia e religião de Santa Teresa de Jesus, escritora espanhola, claro), e Salamanca continuava em meus planos. Foi então que, despretensiosamente (nem tanto), resolvi fazer a “pré-matrícula” do Doutorado em Literatura Espanhola. Abre parêntese: na Espanha, diferente do Brasil, para entrar no Doutorado você apenas precisa apresentar a documentação pedida, um resumo de seu projeto e o aceite de um orientador, professor da universidade. Fecha parêntese.

Mas, um belo dia, pá: recebo um e-mail dizendo da minha aprovação para a pós. Meu marido (lembro da cena até hoje), olhou para mim e só riu muito (claro que de felicidade!), porque, de fato, eu não esperava! Disso para estar atualmente em Salamanca foi uma novela (e tenho que agradecer os posts do blog Esto es Madrid, Madrid, porque foram “uma mão na roda”).

Primeiro que eu tinha que “ajeitar a papelada de matrícula”. Orientador (meu anjo!), secretaria, e-mails intermináááveis tirando dúvidas, pagar taxa daqui, dali… Ufa! Fase um, check! Agora vamos para a fase dois: visto de estudante (aí que as informações deste santo blog me ajudaram mais ainda!). Tirando que eu fiquei como uma doida em São Paulo para reconhecer as firmas dos meus diplomas, para fazer a apostila de Haia (bendita!), batendo ponto no cartório e indo de duas a três vezes no consulado espanhol, tirei meu visto em um pouco mais de um mês (graças a todos que me ajudaram e ao Esto es Madrid, Madrid). Visto feito (e, futuramente, o famoso NIE), passagens compradas, beijo no mozão, na família e nos amigos, partiu Salamanca!

Mas nem tudo são flores… Claro que já conhecia a cidade, mas, como não conhecia mais quase ninguém daqui, precisei me readaptar. Moro em uma “república”, e isso é super normal aqui, pois, muitas vezes, você aluga um quarto por um valor “x” e, muitas vez, com todas as contas inclusas (água, internet, aquecimento, energia). Há vários sites de busca e grupos de redes sociais que te ajudam bastante nessa loteria. Sim, é uma loteria, porque você pode ter a sorte, ou o azar, de encontrar companheiros de “piso” que batam com teu santo. Como faço Doutorado, às vezes, ou melhor, muitas vezes, tenho que trocar as ruas douradas de Salamanca pela biblioteca, ou meu quarto, para estudar, ler, escrever. E, às vezes, os horários entre os colegas não batem muito… Teve momentos em que eu precisava dormir cedo para uma reunião mega importante, ou uma apresentação, e minha “amiguinha” do quarto ao lado ligando o secador na madrugada! Então, a palavra-chave é: paciência. Além de adaptação. Nos três primeiros meses você “apanha” um pouquinho, mas depois relaxa, toma uns “chupitos” e tudo certo! A vida em Salamanca é bela e dourada (estou viciada nessa cor já, eheheh).

Fora a readaptação do clima, horário (ah, a famosa siesta!), estudar em uma universidade que, em 2018, faz 800 anos (novinha, a menina), não tem preço! Tudo, mas tudo mesmo, que preciso para meu Doutorado está aqui. Como estou pesquisando sobre literatura espanhola do século XVI (continuando meus estudos sobre Santa Teresa de Jesus), livros, referências, aulas, congressos, tudo está aqui! Na USAL, tenho a oportunidade de usufruir das bibliotecas de todos os cursos (ando muito entre Letras, História, Tradução, Geografia e até Direito), além de poder fazer as pesquisas em Madrid, Barcelona e também em Portugal! Outro fator diferente entre o Doutorado daqui e do Brasil é que, enquanto no Brasil temos matérias obrigatórias a cumprir, aqui não! Temos, sim, outras obrigatoriedades para fazer, mas o tempo é maior para poder se dedicar mais ao Doutorado.

A única coisa que ainda batalho é por uma bolsa de estudos. Quando tem, você não apresenta um requisito exigido. Quando é bolsa do Brasil, não há distribuição suficiente. São dificuldades que a gente, que é universitário e pesquisador, vai sempre enfrentar, mas desistir do que estou vivendo aqui, jamais! Já pensei, nisso, em desistir? Sim. Já quis largar tudo por causa de saudade? Sim. Mas quando a gente tem pessoas que nos amam de verdade (amor, pais, maninha, amigos e família, amo todos!) e nos apoiam, todas as dificuldades ficam menores. A paixão que tenho pela língua e cultura espanhola, em passar isso adiante com a licenciatura e pela pesquisa acadêmica também valem muito. Também tive sorte de ter um orientador que sabe o que é ser pesquisador e estrangeiro, de estar na USAL, que te dá um aporte grande no que precisar, e de viver em Salamanca, “mi querida ciudad dorada”. No fim, são mais pontos positivos do que negativos. Pedrinhas no sapato que mandamos longe só com uma sacudida…

Por isso vale tanto a pena da gente se arriscar, dar a cara à tapa, lutar pelo que almeja e tentar se melhorar, para ajudar os outros a melhorarem também. Construir-se para construir o outro. Salamanca e sua universidade se construíram para nos construir como estudantes, para construir essas experiências que carregarei por muito tempo e que só tenho a agradecer.

*As fotos são todas dela. Super super obrigada, Larissa, pelo depoimento!

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7 Comentários em Experiência da leitora: ser estudante em Salamanca

  1. Que sonho! Me apaixonei desde quando li sobre Salamanca! Tenho uma pequena esperança de um dia terminar minha graduação em Enfermagem na Usal.

    • Cecilia, espero que dê certo! Estudar na Espanha é uma experiência muito legal mesmo! Um abraço!

    • Larissa de Macedo // 04/06/2018 em 1:12 pm // Responder

      Cecilia, sei pouco sobre o curso de Enfermagem na Usal, mas o que sei é que a Medicina é referência aqui em Castilla y León e, por isso, acredito que Enfermagem seja o mesmo… Procure saber mais sobre bolsas do Santander, ou mesmo as da Fundación Carolina, pois eles ajudam muito! Espero que você consiga!

  2. Olá Larissa, muito legal sua experiencia! Atualmente estou fazendo um Máster na Universidade de Santiago de Compostela e tenho interesse em realizar o Doutorado em Salamanca, mas não conheço nenhum professor da USAL. Gostaria de saber como você entrou em contato com um orientador para obter o aceite? Muito obrigada! 🙂

  3. Olá, adorei o post. Super inspirador.
    Vou me inscrever para o doutoramento na USAL no próximo ano. Queria saber como faço para ter contato com algum professor da área de sociologia ou direito. Alguém pode me ajudar?
    Muito obrigada.

    • Oi, Elaine. Tem muitos másters e doutorados que possuem seu próprio site (específico do curso), onde você encontra o ctto dos professores. Se não tiver, o jeito é tentar entrar em ctto com a secretaria responsável pelo curso. Um abraço!

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