Diferenças entre os países europeus

Em 2018, depois de tanto ouvir que comentários sobre o quanto a Europa é um lugar perfeito, escrevi sobre as diferenças que existem entre a Espanha e a Finlândia no que se refere ao clima, gastronomia, lazer e segurança em colaboração com a amiga e jornalista Adriana, que vive nesse país há alguns anos.

Sempre quisemos fazer uma parte 2 do texto e finalmente aqui está. Dessa vez, escrevemos a quatro mãos sobre os seguintes assuntos: empregos, salários, educação, acesso à saúde, amizade e preconceito. É incrível como as diferenças entre esses dois países europeus são enormes, por isso acho que o texto pode ser interessante para quem planeja morar na Europa e ainda não sabe que país escolher. Acho que os dois textos (a parte um está aqui) deixam claro que não existe lugar perfeito e que cada um tem suas vantagens e desvantagens, cabendo a você escolher aquele que conta com o que valoriza mais. Mais uma vez, obrigada, Adriana!

Emprego

Durante os anos 2008 e 2014, a Espanha sofreu uma grave crise econômica que ainda deixa alguns reflexos. A taxa de desemprego, que chegou a 26% no pior momento da crise (56% para jovens até 25 anos), atualmente é de 14%. Para os jovens, a situação ainda está longe de ser ideal, já que a taxa é de 32%.

Atualmente, o salário mínimo é de 900 euros/mês, mas a média do salário dos espanhóis é de 1.674€, segundo um estudo recente divulgado pela Adecco que também revela que, apesar de o salário médio ter aumentado 1,7% no último ano, o poder de compra dos espanhóis diminuiu por conta da inflação. Hoje em dia, o grau de satisfação dos espanhóis com o emprego é de 6,1 (a nota máxima é 10), mas esse índice varia bastante de acordo com a região do país, assim como os salários e taxa de desemprego são bem desiguais em toda a Espanha.

O mesmo levantamento revela que a Espanha é o 4º país da União Europeia com o maior índice de desempregados de longa duração, ou seja, entre todos os desempregados no país, 32,4% estão nessa situação há mais de dois anos. Na Finlândia, esse índice é de 11,2%.

Mesmo enfrentando a crise que tantos países da Europa sofreram em meados dos anos 2000, a Finlândia conseguiu melhorar sua economia e ainda carece de alguns profissionais de determinadas áreas, como médicos e profissionais de TI. 

Estima-se que  70% das pessoas com idades entre 15 a 64 anos aqui possuem emprego remunerado (aproximadamente 72% dos homens e 69% das mulheres). Talvez esse número se deva à boa educação e qualificações dos finlandeses (88% dos adultos com idades entre 25 e 64 anos concluíram o Ensino Médio).

Devido à baixa taxa de natalidade, calcula-se que haverá falta de profissionais em diversas áreas nos próximos anos e esse reflexo já pode ser visto atualmente. Segundo dados do site This is Finland, em 2008, o número de pessoas que se mudou para a Finlândia foi o maior desde sua independência em 1917. Mas não se empolgue muito, pois para trabalhar aqui é necessário falar o finlandês (apenas poucos empregos ligados à informática aceitam somente o inglês).

A Finlândia não tem um salário mínimo nacional. Todos os profissionais são valorizados e um professor pode chegar a ganhar o mesmo que um médico. A média dos salários em empresas privadas fica entre 3 a 3,5 mil euros por mês. 

Educação

Na Espanha, a educação até o Ensino Médio pode ser de três tipos: pública (gratuita), concertada (privada subsidiada pelo governo) e privada. Como conseguir vaga na escola pública pode ser difícil em algumas regiões, muitos pais recorrem às escolas concertadas, que são bastante mais acessíveis que as privadas.

o Ensino Superior pode ser público ou privado e em ambos os casos ele é pago, mas o privado costuma ser bastante mais caro que a público. Além disso, o governo espanhol e muitas empresas oferecem bolsas de estudos que permitem muitos jovens fazer uma faculdade praticamente de forma gratuita. 

Na Finlândia a educação é totalmente gratuita desde a pré-escola até a universidade. Existem algumas escolas particulares com o modelo internacional de educação e que usam o inglês como língua base, mas uma parte do valor da mensalidade é subsidiado pelo governo.  

Escola na Finlândia (Foto: espoo.fi)

Os alunos finlandeses ficam de quatro a sete horas dentro das escolas públicas, dependendo da série em que estão e das atividades extracurriculares que escolhem fazer. Vale falar que na escola os alunos recebem refeições gratuitas, atendimento de enfermeira (que se achar necessário encaminha a criança para um médico), dentista, psicólogo e apoio pedagógico (caso precise).

Já os professores têm liberdade para planejar suas aulas e escolher a melhor forma de montar o currículo das matérias que serão dadas. Existem provas, mas o ensino é baseado num todo, onde todas as matérias são interligadas, como na vida. 

Além disso cada município tem autonomia para colocar em seu currículo as matérias que acham melhor para os cidadãos que lá estudam e vivem. Como, por exemplo, as escolas do norte do país ainda têm matérias sobre a cultura daquela área, que é diferente da do sul.

Na avaliação do PISA (Programa de Avaliação de Estudante Internacional, da OCDE) o aluno finlandês teve uma pontuação de 523 no domínio de leitura, matemática e ciências, pontuação é muito superior à média da OCDE, de 486. 

Aalto University (Foto: Cluster.org)

Saúde

A Espanha oferece um sistema de saúde público e gratuito para seus cidadãos (e residentes estrangeiros legais) que funciona de forma diferente ao brasileiro. Aqui, a primeira consulta é sempre feita com o seu clínico geral (médico de cabecera), que só te encaminha ao especialista se considerar que há necessidade. Normalmente, é fácil e rápido conseguir consulta com o clínico geral, enquanto as consultas com especialistas podem chegar a demorar. Eu, por exemplo, tive que esperar cerca de dois meses para poder ir a uma consulta com um dermatologista.

Em caso de emergência, você pode ir ao pronto-socorro. Normalmente costuma haver certa demora para ser atendido, mas sem grandes problemas.

Além disso, se o médico te receita algum remédio, você pode comprá-lo na farmácia com desconto, já que parte dele é subsidiada pelo governo.

A Finlândia possui um sistema de saúde com aproximadamente 80% do serviço financiado pelo governo. Aqui se paga por consultas, exames e internações, mas esses valores não são caros.

Já as clínicas médicas particulares são bem caras, mas em geral funcionam muito bem, com diversos especialistas e exames e tudo muito rápido – consegue-se uma consulta para o mesmo dia em alguns casos.

Agora se você optar pelo serviço público (como a maioria dos cidadãos finlandeses e residentes), primeiro terá que passar com uma enfermeira e é ela quem irá definir se você precisa ir a um especialista (que pode demorar até seis meses) ou se apenas alguma medicação simples resolverá o seu problema. 

Se ficar decidido que você precisa passar com o  médico, em casos mais urgentes, a consulta pode ser marcada para o mesmo dia ou dali a alguns dias e, logo depois disso, a receita fica no sistema e você já pode ir até uma farmácia comprar o remédio.  Algumas medicações de uso contínuo também são subsidiadas pelo governo.

Como na Espanha, em casos de emergência aqui na Finlândia pode-se ir ao pronto-socorro e o atendimento também é demorado. Só que, após algumas semanas, a conta chega na sua casa.

Posto de saúde finlandês. (Foto: espoo.fi)

Amizade 

Esse talvez seja o mais ponto mais polêmico porque depende muito da experiência de cada um. Na minha opinião (e vivência), a Espanha não é um país onde as pessoas sejam fechadas a conhecer gente nova e fazer novos amigos, embora tampouco sejam tão abertos quanto os brasileiros. Mas aqui é normal o pessoal do trabalho ou colegas de estudos marcarem um happy hour ou jantar. Talvez seja mais difícil criar laços duradouros, mas não vejo como algo tão complicado se você fizer um certo esforço.

Acho que o estilo de vida parecido entre brasileiros e espanhóis facilita na hora de fazer amigos, já que ambos costumam gostar de festas, gastronomia e uma vida social ativa.

O Estudo Expat Insider entrevista profissionais imigrantes ao redor do mundo e em sua edição de 2018 revelou que a Espanha aparecia em 15º lugar no ranking de países mais fáceis para fazer amigos – de 68 no total. Nesse mesmo estudo, a Finlândia aparece na 61º posição.

Bem diferente da Espanha, na Finlândia não é muito comum o happy hour depois do trabalho, a não ser que seja marcado com semanas de antecedência. Em geral todos os eventos devem ser agendados com dia e hora para começar e terminar. 

Os finlandeses são bem fechados e não é tão fácil fazer amizade com eles. Se você é casado com um finlandês ou finlandesa, sorte a sua, pois “ganha” os amigos do seu parceiro. Mas se não está nesta situação, prepare-se para inicialmente fazer amizade somente com estrangeiros e, depois de algum tempo, talvez com algum finlandês mais aberto.

Claro que existem pessoas “fora da curva”, falantes, cativantes e fáceis de se relacionar. E aqui, como na Espanha, fazer amigos depende muito da experiência de cada um e dos lugares que frequenta. 

Em empresas com mais estrangeiros, as pessoas tendem a ser mais abertas para fazer amizade, assim como nas universidades, onde o número de não finlandeses vem crescendo a cada ano. Tudo depende da “bolha” em que você vive. 🙂

Preconceito

Acho sempre complicado falar de preconceito porque sei que minha perspectiva é totalmente privilegiada: branca, classe média, com estudos universitários, falo o idioma local. Nesses oito anos na Espanha, ouvi alguns comentários desagradáveis, mas acho que posso contar nos dedos as vezes em que fui vítima de preconceito, algo que certamente será diferente para quem tem outra perspectiva.

Mesmo também sendo privilegiada, aqui na Finlândia: branca, cabelo liso e claro e com estudos, diferentemente da Larissa, não tenho o domínio da língua, já passei por algumas situações desagradáveis e delicadas em relação a preconceito, principalmente em serviços públicos. 

Preconceito existe e sempre vai existir. Alguns casos são mais explícitos, outros mais velados, mas o fato é: morando fora do seu país, você sempre será um estrangeiro, sempre será de fora. 

E vocês, já moraram em algum outro país europeu e têm outra experiência ou ponto de vista?

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