Os desafios de ser celíaco na Espanha

Ter alguma alergia ou restrição alimentar pode ser desafiador na hora de viajar. A Andrezza Conde, leitora do blog celíaca, veio passar uma temporada estudando em Sevilha e conta neste post como é ser celíaco na Espanha: os desafios que encontrou, a diversidade de produtos e também como curtir o paraíso das tapas sem ter problemas. Deixo com vocês o post super completo escrito por ela e recomendo também sua conta de Instagram, Recanto da Celíaca.

“2016 foi um ano intenso para mim: ao mesmo tempo que fui selecionada para fazer intercâmbio de um semestre (programa Santander Ibero-Americanas) na Universidad de Sevilla, também fui diagnosticada com doença celíaca – enfermidade genética e de caráter autoimune e sistêmico, que afeta, sobretudo, o intestino, implicando uma série de sintomas nada agradáveis e que pode levar ao câncer se não tratada.

Doença celíaca não tem cura, mas é tratável, que significa uma dieta isenta de glúten (proteína presente no trigo, aveia, centeio e cevada). Isso mesmo, o glúten é o grande vilão! E não adianta apenas cortá-lo; é preciso atentar-se às contaminações cruzadas. Sabe aquele pão de queijo (que naturalmente não tem glúten, porque leva polvilho) que vai no mesmo forno do pão francês (trigo puro!) na padaria? O celíaco não pode comê-lo, porque ele é “contaminado” em seu preparo pelo trigo presente tanto em outros alimentos quanto no ambiente e maquinários. Essa contaminação também acontece em restaurantes, inclusive pizzarias. Por isso, a vida social do celíaco, em muitas situações, é limitada, pois, para comer fora de casa, é necessário que o local seja seguro e adequado às suas necessidades e não lhe traga complicações – uma simples contaminação pode desencadear uma série de sintomas.

No final de 2016 iniciei minha dieta sem glúten em Belo Horizonte, onde moro, e já pensava como seria minha vida em Sevilha, cidade que escolhi para viver e estudar por seis meses a partir do segundo semestre de 2017. Já havia estado na Espanha de férias anos antes, mas ainda não tinha sido diagnosticada, por isso, não sabia o que me esperava por lá.

Enquanto me adaptava à minha nova rotina, comecei a pesquisar sites e redes sociais sobre a vida celíaca em Espanha; e o que descobri foi um verdadeiro mundo de opções sem glúten, o oposto à minha realidade em Belo Horizonte, que quase não oferece muitas opções seguras. Em setembro de 2017, com quase um ano de dieta sem glúten, parti rumo a Sevilha para viver a experiência mais incrível e desafiadora de minha vida; porque, para um celíaco, sair de casa para outro canto significa sair de sua zona de conforto – e segurança alimentar – no sentido mais literal possível da palavra.

Em seis meses vivendo lá, descobri que a Espanha é um país super conscientizado e preparado para os celíacos, pois o número de diagnósticos vem crescendo – estima-se que 1% da população espanhola é diagnosticada! No país, existem a FACE – Federación de Asociaciones de Celíacos de España e as associações regionais e/ou provinciais que atuam e lutam, cada vez mais, pelos direitos dos celíacos em prol de sua saúde e qualidade de vida. Os resultados desses esforços podem ser desfrutados em restaurantes, confeitarias e padarias sem glúten e também supermercados, que vendem várias marcas sem glúten e adequadamente rotuladas.

Diferente do Brasil, onde, infelizmente, grande parte das cidades não possui estruturas nem recursos para celíacos, ou porque há ausência de restaurantes e padarias aptas ou porque grande parte dos produtos sem glúten vendidos em supermercados possui preços elevados, a Espanha vem se convertendo num verdadeiro paraíso “sin gluten”. E o que isso significa? Que viver sem glúten lá não é tão difícil como se parece; e isso facilita muito a vida do celíaco ao sair para comer fora, ao fazer compras e também ao viajar – e esse último item é fundamental para mim, mochileira e viajante apaixonada que sou!

Para comer fora de casa com segurança, há redes sociais e aplicativos que auxiliam na busca por estabelecimentos certificados e aptos – grande parte dos restaurantes possui menu para celíacos ou menu de alérgenos, e os garçons costumam ser conscientizados do tema. Por isso, não posso negar que meu intercâmbio me proporcionou uma vivência gastronômica única, não somente porque lá pude comer com segurança, sem afetar minha saúde, mas porque o país possui uma gastronomia riquíssima e deliciosa, com tradições que eu, particularmente, adoro – entende-se: “salir de tapas”!

Tapas e cerveja sem glúten no bar El Guitarrón de San Pedro, em Jerez de la Frontera

Tapa sem glúten no bar Espacio Eslava, Sevilha

Comer massa, hambúrguer, doces e até tomar sorvete de casquinha são algumas das opções que os celíacos têm! Inclusive, como opção barata e ligeira, o velho e clássico Mc Donalds também possui menu sem glúten e certificado pela FACE.

Vitrine de doces sem glúten da confeitaria Celisioso, em Madrid

Hambúrguer sem glúten do Tommy Mel’s, em Sevilha

Todos os abores da Gelateria Amorino são sem glúten. Eles inclusive oferecem casquinha também sem glúten.

Das grandes redes de supermercados, Mercadona, El Corte Inglés e Carrefour são ótimas opções, com variedade de produtos especificamente sem glúten, nacionais e importados – como pães, biscoitos, massas, etc – e com preços mais acessíveis se comparados ao Brasil.

Seção sem glúten do Carrefour, em Sevilha

Seção sem glúten do El Corte Inglés, em Sevilha

Também tive a oportunidade de participar do 34º Festival del Celíaco, da Asociación de Celíacos y Sensibles al Gluten de Madrid – grande encontro organizado para celíacos e seus familiares e amigos, além do público em geral – no qual grandes marcas sem glúten expõem seus produtos para venda e degustação.

Festival del Celíaco de Madrid, em Madrid

Enfim, o que essa experiência me mostrou é que, apesar de minha condição de saúde, muito sensível, é possível, sim, explorar este mundão, tão vasto e tão bonito, desde que se tenha controle, disciplina e responsabilidade com os limites do organismo. Aprendi muito durante esse período, como pessoa e como celíaca; e, sinceramente, não foi por acaso que a Espanha entrou em minha vida e também não foi por acaso que a descobri meu paraíso gastronômico sem glúten, onde fui muito feliz nesse semestre que lá vivi!”.

Andrezza, super obrigada pelo post! Tenho certeza de que vai ser muito útil para outros leitores celíacos.

Maio é o mês da conscientização da doença celíaca, celebrada nos países da América e da Europa, inclusive Espanha (27 de maio é o dia nacional do celíaco na Espanha). Para celebrar, o Mercado de Pacífico vai promover dois dias de “Feria sin gluten”. Há mais info no Facebook deles

Para quem quiser dicas de onde comprar produtos para celíacos em Madrid, a Sandra escreveu este post bem bacana.

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2 Comentários em Os desafios de ser celíaco na Espanha

  1. Alimentação é sempre complicado em viagens porque saímos da nossa rotina. Imagino a dor de cabeça para quem tem alguma restrição!

    • Oi, Viajento! Ainda bem que hoje em dia isso está ficando mais fácil, mas realmente deve ser bem complicado. Um abraço!

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